Notícia  /  17.04.2018

Apontamento Histórico 4 - O saltador da volta olímpica

O saltador da volta olímpica

Helsínquia assistiu, no dia 23 de Julho de 1952, a um dos mais extraordinários desempenhos olímpicos da história do atletismo e o protagonista foi um atleta brasileiro. Após uma primeira experiência nos Jogos de Londres de 1948, de onde saiu com um oitavo lugar, Adhemar Ferreira da Silva apresentou-se na capital finlandesa creditado com os recordes mundiais do triplo salto obtidos nos dois anos precedentes, em São Paulo e no Rio de Janeiro, a 16,00 m e 16,01 m, respetivamente.

 

Nos seis ensaios da final olímpica de Helsínquia, Adhemar superou o recorde vigente por quatro vezes, terminando com 16,22 m. O que se passou a seguir foi contado pelo próprio atleta numa entrevista concedida em 1999 à TV Globo, na qual, 47 anos depois, descreveu o acontecimento daquele dia.

 

«Um dos juízes disse: 'O público quer que você dê uma volta.' E eu com muito prazer o fiz, porque queria encontrar um meio de agradecer àqueles que me ajudaram a ganhar a medalha de ouro. E aí foi essa volta, que a partir de então começou a ser conhecida como 'volta olímpica'.»

 

Adhemar Ferreira da Silva não precisou de muito tempo para ganhar a estima dos finlandeses, mesmo antes de começarem as provas de atletismo dos Jogos Olímpicos de 1952. Logo à chegada ao aeroporto começou a notabilizar-se quando tratou de fazer saudações em finlandês, com um irrepreensível «Terve! Terve!» («Olá! Olá!»). Depois, sempre em finlandês, perguntou como estava a temperatura, acabando a cantar (em finlandês!) uma canção tradicional do país escandinavo. A simpatia dos finlandeses estava conquistada e seria transposta para a pista do estádio olímpico, onde o público presente nas bancadas não parou de incentivar o triplo-saltador brasileiro, num clamor de incentivo só comparável ao dispensado a Emil Zátopek e ao quarteto jamaicano da estafeta masculina de 4x100 metros.

 

O resto ficou resumido numa volta de honra ao estádio, que mais tarde viria a tornar-se vulgar. Nos nossos dias, não há prova internacional de atletismo em que os vencedores não deem essa volta à pista para cumprimentar e ser cumprimentado pela assistência. Mas em 1952, tal procedimento foi reservado a visitantes especiais, um dos quais vindo do Hemisfério Sul para brilhar na areia nórdica de uma caixa de saltos.

 

Adhemar Ferreira da Silva voltaria a sagrar-se campeão olímpico do triplo salto quatro anos mais tarde, nos Jogos de Melbourne de 1956, tornando-se o primeiro desportista brasileiro a conquistar o título de campeão olímpico em duas edições consecutivas dos Jogos. Pelo meio tinha voltado a bater o recorde mundial da disciplina, com a marca de 16,56 m obtida a 26 de Março de 1955 na Cidade do México.

 

Seria preciso esperar pelos Jogos de Londres de 2012 para encontrar outro brasileiro que se tivesse sagrado campeão em dois Jogos Olímpicos consecutivos. Na verdade, até nem se tratou de um brasileiro mas de seis brasileiras – seis componentes da equipa de voleibol que defendeu com sucesso o título alcançado quatro anos antes em Pequim. Adhemar Ferreira da Silva já não assistiu a esse feito do desporto do seu país. Morrera a 12 de Janeiro de 2001, vítima de ataque cardíaco, deixando o seu nome registado a letras de ouro na história do desporto brasileiro.

 

Carlos Gomes

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